Agonia e graça.

•3 de Agosto de 2009 • Deixe um Comentário

Esta tarde, vi um recém-nascido inanimado sangrando ao colo inconsolável da sua mãe. Não concebo dor maior, humanamente. Porém, o meu paradigma de sofrimento nem é o de recém-nascidos inamimados sangrando aos colos insoláveis das suas mães chorosas, mas um semelhante, se bem que infindamente maior: a do Pai eterno ao testemunhar a morte do seu Filho perfeito e puro nas mãos dos seus inimigos, por quem orava antes de expirar na Cruz que ele mesmo providenciou.

O Evangelho não é mel: é sangue. Não é paz: é morte. Não é conformação: é ressurreição. Daí parecer-me real o mundo que presencio: faz jus à feiura e padecimento que procede do pecado perante nós, vindo de nós.  Sob a fé na Queda, bebés condenáveis à morte instantânea e suas mães desmaiadas de agonia fazem sentido.

E a redenção que vem de Cristo, que nos liberta desta mortandade, fá-lo mais e mais glorioso.

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Lamentação perante os neobabilonos.

•3 de Agosto de 2009 • 1 Comentário

Reconheço, com lástima, que fui profícuo em muitos debates na minha vida em fazer admitir, de muitos lábios budistas, o seu ateísmo. E isto não é vaidade minha, mas miséria sua. Pois em todo o new-ager e panteísta pagão crepita um ateu implícito.

Afirmar que Deus é tudo é mero eufemismo para crer que ele não é nada; e defender que ele habita tanto nas Santas Escrituras como no meu candeeiro é uma paráfrase para a fé de que não nos importamos com ele, tanto quanto nos é irrelevante um candeeiro – ainda para mais, meu.

Qual a natureza da fé: racional ou paradoxal?

•29 de Julho de 2009 • Deixe um Comentário

Segue-se uma leitura dada pelo apologeta pressuposicionalista americano Gordon H. Clark (a quem devo o método e em quem tenho o meu filósofo cristão predilecto). O tema é o da controvérsia de que este tomou parte com Cornelius Van Til nos círculos presbiterianos dos meados do séc XX.

Sintetizando, discutia-se qual o axioma fundacional da epistemologia cristã. Van Til cria que era o Deus triuno; Clark, a Bíblia sob a revelação do Deus triuno. Van Til reafirmava que a Bíblia só era compreensível pela acção ontológica do Deus triuno sobre o indivíduo; Clark consentia, mas lembrava que só a Bíblia revelada apresentava o Deus triuno que a discerne a este.

Van Til, emprestando a sua concepção de fé a partir de Kierkegaard e, em certa medida, o neo-ortodoxo Karl Barth, argumentava que, devido ao pecado original e a depravação total do homem inviabilizavam qualquer conhecimento do Deus transcendente por parte do homem finito, sendo que a sua ciência era meramente analógica, desprovida de qualquer ponto de contacto com o Criador (Isaías 55:8-9). Clark contratacava, lembrando que a fé salvífica é objectiva e racional (Hebreus 11:1-3), e que Deus, a partir momento da regeneração do cristão, se faz conhecer realmente; e não somente ao crente, mas também ao incrédulo, pela sua revelação natural, cujo conhecimento o não-cristão suprime, apesar da sua imanência adâmica (Romanos 1:18-23).

São 6 partes.

Um kerygma.

•28 de Julho de 2009 • Deixe um Comentário

Segue-se uma tradução metrificada dum ‘kerygma’; ie, um cântico cristológico do primeiro século, vindo da igreja primitiva, e incluso no cânone, por referência do apóstolo Paulo. Creio ser de importância recuperarmos estes hinos inspirados devido à riqueza teológica que representam (divindade jesuânica, união hipostática, exaltação do Cristo, etc), assim como pela sua excelência estética, que, como biblicista, não distingo. Mas, sobretudo, pela sua autoria divina.

(Colossenses 1:15-20)

Jesus a imagem é do Deus visto jamais;
De toda a criação o primogénito seu.
Pra si criou-se tudo o quanto contemplais
No céu, na terra, o quanto vês e não olhais –
Todo o trono, domínio, jugo se lhe deu.
Em si e pra si tudo o que há Ele concebeu.

Cristo precede tudo e tudo em si suporta.
Da igreja, que é o seu corpo, é sua autoridade.
Começo é, e primogénito a toda a alma morta,
Pra que ostentasse sobre tudo a majestade.
Pois em si habitou o todo da divindade
E reconciliou em si toda a imensidade,

 Do céu, da terra, para a paz que nos conforta,
 Plo seu sangue na cruz que à glória sua exorta.

Micro-apologética do dia: relativismo teísta/Nova Era.

•28 de Julho de 2009 • 1 Comentário

Proposição 

Jesus é um caminho entre muitos e todos são a verdade.

Silogismo

1. Jesus é um caminho entre muitos e todos são a verdade.

2. Jesus diz que ele é o único caminho e só ele é a verdade (João 14:6).

Logo:

a) Se 2. é verdade, logo 1. é falso;

b) Se 1. é verdade, logo 2. é falso; mas se 2. é falso, logo 1. não pode ser verdade.

O tolo diz no seu coração (Salmo 14): ‘Preciso duma equipa de reportagem.’

•27 de Julho de 2009 • 2 comentários

Há três semanas a comunhão de S. Domingos de Benfica recebeu Hugo Gonçalves, jornalista e host do programa de reportagens chamado ‘Portugal, Meu Amor’, na SIC Radical. E vou ser franco quando à minha apreciação do seu trabalho: faz jus ao canal. Quem souber do que falo, subentenda.

Tive oportunidade de ver algum do seu trabalho anterior, nomeadamente as suas entrevistas sobre o que ele diria ser ‘o mundo socialite das celebridades da televisivas’, mas que, no fundo, foi uma série de Q&A com as cabeças de cartaz do canal da casa. Neste episódio IX, intitulado ‘Na paz do Senhor’, Gonçalves finda a temporada com fogo de artifício: o fogo do seu zelo secularista e o artifício duma pós-produção que o parece representar como vitorioso nas suas santas-inquirições a esse espécime devoluído do homem darwiniano: o cristão bíblico.

Hugo adentrou a nossa igreja e mostrou cortesia na sua participação do culto. Após o dito, ele ajunta a congregação, e diz-se-nos um agnóstico humilde que apenas rogar por respostas (e quem desconfiasse disso, bastava que olhasse para a sua t-shirt, que profilava a impressão ‘Porquê?’). Porém, enquanto discípulos de Cristo, sabemo-lo: não existem agnósticos; nem agnósticos que sejam humildes. Mais: a neutralidade epistémica – independente de pressuposições e cosmovisões fundacionais – é ilógica. Segundo Chesterton, a imparcialidade é meramente uma palavra eufemística para ‘desdém’; e a neutralidade uma desculpa para a ignorância. Para Cristo, a controvérsia era mais profunda: ‘Quem não é comigo é contra mim’ (Mateus 12:13). É nesta antítese que toda a apologética cristã se baseia.

As perguntas que se seguiram exsudavam a sua inimizade latente: por que teve Deus prazer na destruição de Sodoma e Gomorra e nos genocídios que os judeus instigaram pelas suas ordens? Por que razão irá Cristo, no Dia do Julgamento, escolher os cristãos, que são pecadores e até mataram tantos infiéis por intolerância, e condenará os não-cristãos, que até tentam ser ‘boas pessoas’? Por que não se ordenam mulheres? Por que se diz ser pecado a homossexualidade? Só pela arbitrariedade, concatenação e descontextualização destas questões descobre-se que a pretensa agnosticidade e imparcialidade do entrevistador se desfaz.

Como responder? Ora, tendo em conta que o trabalho de edição pode redundar na peça jornalística (códigos deontológicos à parte) que se segue – pouco importa. Os hugos gonçalves deste mundo estão demasiado escravizados pelos seus preconceitos humanisto-secularistas, ainda entoando os seus mantras paleomodernos de absolutismos empiricistas, cienticistas, behavioristas, tabula rasa-istas… – ou seja, todo um caleidescópio de sentimentos renegadores da civilização que produziu o Ocidente, e que, em fé creio, restaurará-la-á ao mundo. Neste sentido, o nosso querido inquiridor nem conhece a pós-modernidade e as novas questões que se põem à fé bíblica; enfim: a evolução do debate interminável a que ele se propõe tomar parte, e que o ultrapassa para lá do que este entretém nas suas opinações de soundbyte. Remonta à antiga modernidade novecentista que os fósseis falantes e publicáveis que Dawkins e Hitchens representam. Leu-os e surgiu-lhe de imediato o script. É o domínio softmore, cable-tv friendly. Mas era bem mais humorado quando o britânico Louie Theroux o fazia aos fins-de-semana. Este pesquisava.

Pois então, dito isto, que importa que o meu irmão Tó Zé tenha respondido e bem argumentado que os próprios darwinistas de hoje não subcrevem ao Darwin canónico (como admitido inúmeras vezes na comemoração da efeméride)? Que importa que o meu irmão Marcus lhe lembre que a comunidade científica esteja pejada de cristãos (em especial os investigadores do genoma)? Que importa que eu faça Hugo Gonçalves reconsiderar o seu positivismo iluminista, e confessar que sim – que a humanidade tem uma predisposição para o mal; para a violação da ética do Decálogo, e que, segundo estes mesmos dez mandamentos, ele, Hugo Gonçalves, se afirme, como o fez à nossa frente, que era, é, e sempre será um pecador – e que todos os homens o são? Nada. Pois nada disto será incluído na reportagem, como o não foi.

Resta, porém, o testemunho pessoal ali demonstrado. Oro para que o Senhor regenere o seu coração endurecido e este venha a crer no Evangelho. Temos que amar o nosso inimigo: estimar genuinamente quem odiaríamos. É a verbalização da compaixão cristã que define a apologética da nossa fé, o mostrar a ‘razão da nossa esperança’. Porque compassividade é tudo o que esta reportagem que Hugo Gonçalves inspira: o fechamento, o dogmatismo, o obscurantismo; a incapacidade de escutar e compreender, de assentir e compadecer – todo o catálogo de preconceitos que o jornalista remete historicamente para esses credulistas de mitos e fanáticos intolerantes que são os cristãos, é perfeitamente revisto no julgamento sumário (em 30 min, note-se) de Hugo Gonçalves, o agnóstico humilde e indeciso, que admitiu, off-record, ter, há já muito, as suas dúvidas ontológicas satisfeitas, seladas, dogmatizadas. Eis a parte da sua representação que foi filmada: aqui.

A dívida da cristandade. E do mundo.

•14 de Julho de 2009 • Deixe um Comentário
Cevada fermentada para um palato ortodoxo apenas.

Cevada fermentada para um palato ortodoxo apenas.

Não só devem os cristãos evangélicos a Calvino pela restituição da autoridade da Palavra na Igreja, pela institucionalização da fé bíblica com seus credos, confissões e catecismos, pela disseminação de missões e mobilização de ministérios de Genebra para o resto do mundo, pela composição dos primeiros saltérios e hinários de louvor público – entre tantos mais etcæteras de menção – como também deve o mundo agradecer o Deus em que não crê pelo seu servo, que não lembrou.

Afinal, quem senão Calvino, ao deixar as Sagradas Escrituras falarem por si mesmas, deu a César o que era de César e reteve em Cristo o que este reclama terrenamente? O reformador separou a Igreja do Estado. E não somente o Estado da Igreja, mas fundou instituições autónomas, como as da educação, das finanças, do governo civil, do casamento por registo – enfim, todas as esferas da vida pública, que Calvino compreendia jazerem, sem excepção, sob a soberania de Cristo, se bem que independentemente entre si mesmas, num pluralismo trinitário.

A própria democracia, sustentada pela liberdade da consciência individual, não deve à Revolução Francesa mais que ao genovês, que extendeu o modelo de administração eclesiástica do Novo Testamento – o presbitério – ao Estado, resultando num parlamentarismo federal representativista, com voto e restrição do poder, que se queria o mais dividido e descentralizado quanto possível.

Seguiram-se a República Holandesa, as cidades-Estado do norte da Alemanha, e a Inglaterra, após a chamada ‘revolução gloriosa’, que inaugurou o governo constitucional (antecedendo a insurreição jacobina). Porém, foi a independência dos EUA e a escrita da sua constituição por mão puritana que fez culminar o adágio que Abraham Kuyper (primeiro-ministro holandês do séc XX) replicou sem cessar: ‘onde quer que o calvinismo grassou, abundou insofismavelmente a liberdade’.

‘[Jesus] lembra que não se pode deprezar de ânimo leve uma tão preciosa liberdade. E é decerto uma bênção incalculável, cuja defesa é nosso dever reter pela luta, se necessário até à morte; pelo que não só as nossas necessidades temporais como também os nossos interesses eternos animam a nossa pugna’.

João Calvino, Comentário da Espístola aos Gálatas