Sola fide ou sola hipocrisia? Tiago fala com Paulo. Concordam. Os legalistas? Perdem.

1. Justificação pela fé

Sola Fide. Pela fé apenas todo o pecador é justificado perante Deus. Deveras,o apóstolo diz que ‘o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei’ (Romanos 3:23), e que ‘pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós: é dom de Deus; não vem das obras, para que nenhum homem se glorie’ (Efésios 2:8-9). Estas palavras, pois, meramemente parafraseiam Jesus, ao ser inquirido pelos discípulos sobre o que fazer para obter a salvação, que perguntavam: ‘Que havemos de fazer para praticarmos as obras de Deus? Jesus lhes respondeu: A obra de Deus é esta: Que creias naquele que ele enviou’ (João 6:28-29). Assim, todos os que se sentem cansados pela esforço inútil de cumprir a Lei perfeita de Deus e serem justificados pelas suas obras, que nunca os declarará rectos devido à sua pecaminosidade inerente (Romanos 3:23), podem, enfim, encontrar repouso eterno em Cristo, que conforta a todo o que nele crê, assegurando: ‘Vinde a mim, vós que estais os cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei!’ (Mateus 11:28).

2. Os inimigos da fé

Mas muitos há, como os fariseus, doutores da Lei, legalistas, que querem usurpar o cristão da sua fé em Cristo e na suficiência da Cruz para o perdão dos pecados e a certeza da salvação eterna. Mais ainda: todas a religiões não-cristãs o fazem. De quais falo? De todas as que não crêem que o pecador é justificado pela fé tão-somente; as que o negam ou tentam ambiguar a distinção entre a Lei, que condena, e o Evangelho, que liberta; entre as obras que só vangloriam a carne – e a fé, que só glorifica o seu autor e consumador: Jesus Cristo. Mentes carnais são, que recorrem às Escrituras, que desdenham, para fazê-las contradizer-se. Dirão, pois: a Palavra nunca diz que o pecador é salvo pela fé apenas; que, de facto, a Palavra diz o contrário, pois que ‘é pelas obras que o homem é justificado e não somente pela fé’ (Tiago 2:24); que ‘a fé, sem obras, é morta’ (v. 26).

3. Que justificação é a justificação pelas obras que Tiago fala?

Como retorquir a tal acusação? Ora, pois, basta obedecer a Paulo, que nos aconselha: ‘Estuda para que te apresentes perante Deus aprovado como obreiro sem mácula, que maneja bem a Palavra da Verdade’ (II Timóteo 2:15). Consideremos o contexto:

O apóstolo Tiago fala com outro homem. Apresenta-nos um quadro hipotético: ‘Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo?’ (v. 14). Repare-se que ele não afirma que este indivíduo tem fé, mas que diz que tem; pois não é que possua a fé salvífica que o justifica, mas tem a pretensão de a ter perante os outros. Contudo, ele não veste aos irmãos que, de tal pobreza, não têm provisão de roupa, irando Tiago, que não vê proveito em tal homem, que se diz crente (vv. 15-16). Consequentemente, eis o que diz o apóstolo sobre a fé que este inepto se vangloria de possuir: ‘a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma’ (v. 17); comparando, desta forma, a fé que Tiago tem, e é visível a todos pelas obras que dela fruem com a dita fé do interlocutor, que não mostra sinais de vida: ‘Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras’ (v. 18). O homem que alega ser crente, riposta miseravelmente, subentendendo que crê no único Deus, obrigando à resposta que escutamos: ‘Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demónios também o crêem, e estremecem’ (v. 19) – pois que tem que este creia no monoteismo, tal como o islamita, o judeu apóstata, o Testemunha de Jeová, o mórmon, o romanista, etc, que negam a suficiência do Evangelho de graça; enfim todo aquele que não crê em Cristo e nele confia toda a sua salvação (João 3:16)? Que fé estéril esta! – e fé, sem fruto, não é, como sabemos, fé nenhuma.

4. A resposta: justificação não perante Deus, mas perante os homens

Aqui, porém, o sofista e o legalista clamam-se vitoriosos, quando Tiago, aponta-nos ‘porventura não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar seu filho Isaque?’ (v. 21). Porém, fá-lo em vão. Pois esta justificação de que se fala não é resposta para a questão de como é o homem justificado perante Deus – coisa que Cristo e Paulo já estabeleceram. Não; esta justificação é  justificação perante os homens; os irmãos de fé; os cristãos cuja fé é a fé verdadeira, donde um amor por Cristo se manifesta pelo amor à Lei que antes os condenava (Romanos 6:17-19). Decididamente, esta justificação que o apóstolo fala é aquela que justificaria este homem de pretensão vácua, que diz ter fé diante dos mais, mas que permanece tão mudo quanto inerte perante o imperativo anterior: ‘mostra-me a tua fé’ (v. 18); que justificaria, perante Tiago, que fôra justificado pela fé, mostrando os frutos de obediência dum coração regenerado. Abraão, todavia, pôde justificar perante todo o Israel que fôra justificado perante Deus apenas pela fé no Evangelho (e não só no Deus monoteísta), ao crer que Deus providenciaria o seu Filho, e não Isaque, para expiar os pecados do seu povo. Como o sei? Ora, o legalista, o doutor da Lei, o fariseu, o catolicista fanático pela penitência alheia logo pasmam ao lerem o que o apóstolo de seguida afirma, ao pronunciar: ‘cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus!’ (v. 23). Sim; Abraão teve fé, e nesse momento foi justificado perante Deus. Mais: Abraão, ao mostrar a sua obediência, justificou a sua fé perante todo o mundo, e no acto de lealdade, aprofundou a sua santificação, aperfeiçoando aquela fé evangélica que o salvara (v. 22; Romanos 4:20-22). Verdadeiramente, o patriarca de Israel poderia justificar-se perante o apóstolo Tiago, não tão-somente pela fé que diria dispôr, mas pelas obras, que a manifestam a nós, que não conhecemos, como o Senhor omnisciente, o coração de quem se diz ser nosso irmão na fé.

5. A vaidade do legalista e o descanso do crente em Cristo

Assim tombam as falácias inúteis dos sofistas, que, uma vez mais, são humilhados perante a Palavra inspirada e inerrante de Deus. Estes ouvem a sua voz ecoar nestas imprecações de Cristo:

‘Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demónios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramemnte: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’ (Mateus 7:22-23).

Tais hipócritas mostravam obras mais excelentes que Abraão, e mais espectaculares que qualquer um de nós vez alguma presenciou. Mas, porém, justificaram-se perante o Altíssimo com as suas obras, em vez de apontarem para a obra expiatória de Cristo no Calvário e a obediência perfeita do Redentor para serem declarados justos por imputação, preferindo a vaidade das suas obras para se mostrarem superiores perante quanto aos outros homens, e pior: perante Deus.

Aos mais, que em si não vêm lei nenhuma senão a do pecado e da morte, Jesus exorta, confortando: ‘Não temas: crê somente!’ (Lucas 8:50).

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~ por Nuno Miguel Fonseca em 16 de Agosto de 2009.

3 Respostas to “Sola fide ou sola hipocrisia? Tiago fala com Paulo. Concordam. Os legalistas? Perdem.”

  1. Excelente estudo sobre a justificação pela fé, Nuno.
    Gostei.

    Um abraço

    (Se puderes põe o corpo do texto um pouco mais claro para se ler melhor.)

  2. na realidade, a palavra (tradução) justificação atrapalha muito a compreensão da mensagem (digo isto, da perspectiva de uma recém aprendiz de teologia). Justiça ou essa dimensão de “direcção” (righteousness) poderia clarificar mais o papel da agências humana e divinas. Mas eu só agora estou a iniciar estes estudos (fulcrais para a mística, claro).

  3. Cara Joana,

    O verbo que nos chega ao português como traduzido por ‘justificar’ é /dikaioo/, que, na epístola de Tiago, tal como nas paulinas, aparece associada a termos legais como /logizomai/ (traduzido por ‘imputação’) e /katakrima/ (trad. ‘condenação’). Temos, ainda para mais, o emprego do mesmo vocabulário – na LXX – em especial na legislação da Tannakh, em substituição do hebreu /tsâdaq/, em contextos legais/forenses. Também aparece por todo o VT em contextos tão óbvios como este:

    Pro 17:15 O que justifica [heb: tsâdaq; gr LXX: dikaioo] o ímpio, e o que condena o justo, são abomináveis ao Senhor, tanto um como o outro.

    Ando a par das chamadas ‘novas perspectivas paulinas’, que desafiam o carácter semântico destes termos que nós – digo os protestantes/evangélicos/calvinistas, crendomo-nos suportados por muita da teologia patrística e, em especial, a agustiniana – temos por certeza.

    Mas lá está: não conheço a tua alternativa. Estaria aberto a escutá-la. A exegese que apresentei nunca me causou atrapalhação, e a avaliação do koiné também me deixa sem dúvidas.

    Mas venha. Gimme your best shot.

    [PS: Peço só que ponhas de parte o teu misticismo apenas por agora]

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