Há três semanas a comunhão de S. Domingos de Benfica recebeu Hugo Gonçalves, jornalista e host do programa de reportagens chamado ‘Portugal, Meu Amor’, na SIC Radical. E vou ser franco quando à minha apreciação do seu trabalho: faz jus ao canal. Quem souber do que falo, subentenda.
Tive oportunidade de ver algum do seu trabalho anterior, nomeadamente as suas entrevistas sobre o que ele diria ser ‘o mundo socialite das celebridades da televisivas’, mas que, no fundo, foi uma série de Q&A com as cabeças de cartaz do canal da casa. Neste episódio IX, intitulado ‘Na paz do Senhor’, Gonçalves finda a temporada com fogo de artifício: o fogo do seu zelo secularista e o artifício duma pós-produção que o parece representar como vitorioso nas suas santas-inquirições a esse espécime devoluído do homem darwiniano: o cristão bíblico.
Hugo adentrou a nossa igreja e mostrou cortesia na sua participação do culto. Após o dito, ele ajunta a congregação, e diz-se-nos um agnóstico humilde que apenas rogar por respostas (e quem desconfiasse disso, bastava que olhasse para a sua t-shirt, que profilava a impressão ‘Porquê?’). Porém, enquanto discípulos de Cristo, sabemo-lo: não existem agnósticos; nem agnósticos que sejam humildes. Mais: a neutralidade epistémica – independente de pressuposições e cosmovisões fundacionais - é ilógica. Segundo Chesterton, a imparcialidade é meramente uma palavra eufemística para ‘desdém’; e a neutralidade uma desculpa para a ignorância. Para Cristo, a controvérsia era mais profunda: ‘Quem não é comigo é contra mim’ (Mateus 12:13). É nesta antítese que toda a apologética cristã se baseia.
As perguntas que se seguiram exsudavam a sua inimizade latente: por que teve Deus prazer na destruição de Sodoma e Gomorra e nos genocídios que os judeus instigaram pelas suas ordens? Por que razão irá Cristo, no Dia do Julgamento, escolher os cristãos, que são pecadores e até mataram tantos infiéis por intolerância, e condenará os não-cristãos, que até tentam ser ‘boas pessoas’? Por que não se ordenam mulheres? Por que se diz ser pecado a homossexualidade? Só pela arbitrariedade, concatenação e descontextualização destas questões descobre-se que a pretensa agnosticidade e imparcialidade do entrevistador se desfaz.
Como responder? Ora, tendo em conta que o trabalho de edição pode redundar na peça jornalística (códigos deontológicos à parte) que se segue – pouco importa. Os hugos gonçalves deste mundo estão demasiado escravizados pelos seus preconceitos humanisto-secularistas, ainda entoando os seus mantras paleomodernos de absolutismos empiricistas, cienticistas, behavioristas, tabula rasa-istas… – ou seja, todo um caleidescópio de sentimentos renegadores da civilização que produziu o Ocidente, e que, em fé creio, restaurará-la-á ao mundo. Neste sentido, o nosso querido inquiridor nem conhece a pós-modernidade e as novas questões que se põem à fé bíblica; enfim: a evolução do debate interminável a que ele se propõe tomar parte, e que o ultrapassa para lá do que este entretém nas suas opinações de soundbyte. Remonta à antiga modernidade novecentista que os fósseis falantes e publicáveis que Dawkins e Hitchens representam. Leu-os e surgiu-lhe de imediato o script. É o domínio softmore, cable-tv friendly. Mas era bem mais humorado quando o britânico Louie Theroux o fazia aos fins-de-semana. Este pesquisava.
Pois então, dito isto, que importa que o meu irmão Tó Zé tenha respondido e bem argumentado que os próprios darwinistas de hoje não subcrevem ao Darwin canónico (como admitido inúmeras vezes na comemoração da efeméride)? Que importa que o meu irmão Marcus lhe lembre que a comunidade científica esteja pejada de cristãos (em especial os investigadores do genoma)? Que importa que eu faça Hugo Gonçalves reconsiderar o seu positivismo iluminista, e confessar que sim - que a humanidade tem uma predisposição para o mal; para a violação da ética do Decálogo, e que, segundo estes mesmos dez mandamentos, ele, Hugo Gonçalves, se afirme, como o fez à nossa frente, que era, é, e sempre será um pecador – e que todos os homens o são? Nada. Pois nada disto será incluído na reportagem, como o não foi.
Resta, porém, o testemunho pessoal ali demonstrado. Oro para que o Senhor regenere o seu coração endurecido e este venha a crer no Evangelho. Temos que amar o nosso inimigo: estimar genuinamente quem odiaríamos. É a verbalização da compaixão cristã que define a apologética da nossa fé, o mostrar a ‘razão da nossa esperança’. Porque compassividade é tudo o que esta reportagem que Hugo Gonçalves inspira: o fechamento, o dogmatismo, o obscurantismo; a incapacidade de escutar e compreender, de assentir e compadecer – todo o catálogo de preconceitos que o jornalista remete historicamente para esses credulistas de mitos e fanáticos intolerantes que são os cristãos, é perfeitamente revisto no julgamento sumário (em 30 min, note-se) de Hugo Gonçalves, o agnóstico humilde e indeciso, que admitiu, off-record, ter, há já muito, as suas dúvidas ontológicas satisfeitas, seladas, dogmatizadas. Eis a parte da sua representação que foi filmada: aqui.