Um kerygma.

•28 28UTC Julho 28UTC 2009 • Deixe um Comentário

Segue-se uma tradução metrificada dum ‘kerygma’; ie, um cântico cristológico do primeiro século, vindo da igreja primitiva, e incluso no cânone, por referência do apóstolo Paulo. Creio ser de importância recuperarmos estes hinos inspirados devido à riqueza teológica que representam (divindade jesuânica, união hipostática, exaltação do Cristo, etc), assim como pela sua excelência estética, que, como biblicista, não distingo. Mas, sobretudo, pela sua autoria divina.

(Colossenses 1:15-20)

Jesus a imagem é do Deus visto jamais;
De toda a criação o primogénito seu.
Pra si criou-se tudo o quanto contemplais
No céu, na terra, o quanto vês e não olhais -
Todo o trono, domínio, jugo se lhe deu.
Em si e pra si tudo o que há Ele concebeu.

Cristo precede tudo e tudo em si suporta.
Da igreja, que é o seu corpo, é sua autoridade.
Começo é, e primogénito a toda a alma morta,
Pra que ostentasse sobre tudo a majestade.
Pois em si habitou o todo da divindade
E reconciliou em si toda a imensidade,

 Do céu, da terra, para a paz que nos conforta,
 Plo seu sangue na cruz que à glória sua exorta.

Micro-apologética do dia: relativismo teísta/Nova Era.

•28 28UTC Julho 28UTC 2009 • 1 Comentário

Proposição 

Jesus é um caminho entre muitos e todos são a verdade.

Silogismo

1. Jesus é um caminho entre muitos e todos são a verdade.

2. Jesus diz que ele é o único caminho e só ele é a verdade (João 14:6).

Logo:

a) Se 2. é verdade, logo 1. é falso;

b) Se 1. é verdade, logo 2. é falso; mas se 2. é falso, logo 1. não pode ser verdade.

O tolo diz no seu coração (Salmo 14): ‘Preciso duma equipa de reportagem.’

•27 27UTC Julho 27UTC 2009 • 2 Comentários

Há três semanas a comunhão de S. Domingos de Benfica recebeu Hugo Gonçalves, jornalista e host do programa de reportagens chamado ‘Portugal, Meu Amor’, na SIC Radical. E vou ser franco quando à minha apreciação do seu trabalho: faz jus ao canal. Quem souber do que falo, subentenda.

Tive oportunidade de ver algum do seu trabalho anterior, nomeadamente as suas entrevistas sobre o que ele diria ser ‘o mundo socialite das celebridades da televisivas’, mas que, no fundo, foi uma série de Q&A com as cabeças de cartaz do canal da casa. Neste episódio IX, intitulado ‘Na paz do Senhor’, Gonçalves finda a temporada com fogo de artifício: o fogo do seu zelo secularista e o artifício duma pós-produção que o parece representar como vitorioso nas suas santas-inquirições a esse espécime devoluído do homem darwiniano: o cristão bíblico.

Hugo adentrou a nossa igreja e mostrou cortesia na sua participação do culto. Após o dito, ele ajunta a congregação, e diz-se-nos um agnóstico humilde que apenas rogar por respostas (e quem desconfiasse disso, bastava que olhasse para a sua t-shirt, que profilava a impressão ‘Porquê?’). Porém, enquanto discípulos de Cristo, sabemo-lo: não existem agnósticos; nem agnósticos que sejam humildes. Mais: a neutralidade epistémica – independente de pressuposições e cosmovisões fundacionais - é ilógica. Segundo Chesterton, a imparcialidade é meramente uma palavra eufemística para ‘desdém’; e a neutralidade uma desculpa para a ignorância. Para Cristo, a controvérsia era mais profunda: ‘Quem não é comigo é contra mim’ (Mateus 12:13). É nesta antítese que toda a apologética cristã se baseia.

As perguntas que se seguiram exsudavam a sua inimizade latente: por que teve Deus prazer na destruição de Sodoma e Gomorra e nos genocídios que os judeus instigaram pelas suas ordens? Por que razão irá Cristo, no Dia do Julgamento, escolher os cristãos, que são pecadores e até mataram tantos infiéis por intolerância, e condenará os não-cristãos, que até tentam ser ‘boas pessoas’? Por que não se ordenam mulheres? Por que se diz ser pecado a homossexualidade? Só pela arbitrariedade, concatenação e descontextualização destas questões descobre-se que a pretensa agnosticidade e imparcialidade do entrevistador se desfaz.

Como responder? Ora, tendo em conta que o trabalho de edição pode redundar na peça jornalística (códigos deontológicos à parte) que se segue – pouco importa. Os hugos gonçalves deste mundo estão demasiado escravizados pelos seus preconceitos humanisto-secularistas, ainda entoando os seus mantras paleomodernos de absolutismos empiricistas, cienticistas, behavioristas, tabula rasa-istas… – ou seja, todo um caleidescópio de sentimentos renegadores da civilização que produziu o Ocidente, e que, em fé creio, restaurará-la-á ao mundo. Neste sentido, o nosso querido inquiridor nem conhece a pós-modernidade e as novas questões que se põem à fé bíblica; enfim: a evolução do debate interminável a que ele se propõe tomar parte, e que o ultrapassa para lá do que este entretém nas suas opinações de soundbyte. Remonta à antiga modernidade novecentista que os fósseis falantes e publicáveis que Dawkins e Hitchens representam. Leu-os e surgiu-lhe de imediato o script. É o domínio softmore, cable-tv friendly. Mas era bem mais humorado quando o britânico Louie Theroux o fazia aos fins-de-semana. Este pesquisava.

Pois então, dito isto, que importa que o meu irmão Tó Zé tenha respondido e bem argumentado que os próprios darwinistas de hoje não subcrevem ao Darwin canónico (como admitido inúmeras vezes na comemoração da efeméride)? Que importa que o meu irmão Marcus lhe lembre que a comunidade científica esteja pejada de cristãos (em especial os investigadores do genoma)? Que importa que eu faça Hugo Gonçalves reconsiderar o seu positivismo iluminista, e confessar que sim - que a humanidade tem uma predisposição para o mal; para a violação da ética do Decálogo, e que, segundo estes mesmos dez mandamentos, ele, Hugo Gonçalves, se afirme, como o fez à nossa frente, que era, é, e sempre será um pecador – e que todos os homens o são? Nada. Pois nada disto será incluído na reportagem, como o não foi.

Resta, porém, o testemunho pessoal ali demonstrado. Oro para que o Senhor regenere o seu coração endurecido e este venha a crer no Evangelho. Temos que amar o nosso inimigo: estimar genuinamente quem odiaríamos. É a verbalização da compaixão cristã que define a apologética da nossa fé, o mostrar a ‘razão da nossa esperança’. Porque compassividade é tudo o que esta reportagem que Hugo Gonçalves inspira: o fechamento, o dogmatismo, o obscurantismo; a incapacidade de escutar e compreender, de assentir e compadecer – todo o catálogo de preconceitos que o jornalista remete historicamente para esses credulistas de mitos e fanáticos intolerantes que são os cristãos, é perfeitamente revisto no julgamento sumário (em 30 min, note-se) de Hugo Gonçalves, o agnóstico humilde e indeciso, que admitiu, off-record, ter, há já muito, as suas dúvidas ontológicas satisfeitas, seladas, dogmatizadas. Eis a parte da sua representação que foi filmada: aqui.

A dívida da cristandade. E do mundo.

•14 14UTC Julho 14UTC 2009 • Deixe um Comentário
Cevada fermentada para um palato ortodoxo apenas.

Cevada fermentada para um palato ortodoxo apenas.

Não só devem os cristãos evangélicos a Calvino pela restituição da autoridade da Palavra na Igreja, pela institucionalização da fé bíblica com seus credos, confissões e catecismos, pela disseminação de missões e mobilização de ministérios de Genebra para o resto do mundo, pela composição dos primeiros saltérios e hinários de louvor público – entre tantos mais etcæteras de menção – como também deve o mundo agradecer o Deus em que não crê pelo seu servo, que não lembrou.

Afinal, quem senão Calvino, ao deixar as Sagradas Escrituras falarem por si mesmas, deu a César o que era de César e reteve em Cristo o que este reclama terrenamente? O reformador separou a Igreja do Estado. E não somente o Estado da Igreja, mas fundou instituições autónomas, como as da educação, das finanças, do governo civil, do casamento por registo – enfim, todas as esferas da vida pública, que Calvino compreendia jazerem, sem excepção, sob a soberania de Cristo, se bem que independentemente entre si mesmas, num pluralismo trinitário.

A própria democracia, sustentada pela liberdade da consciência individual, não deve à Revolução Francesa mais que ao genovês, que extendeu o modelo de administração eclesiástica do Novo Testamento – o presbitério - ao Estado, resultando num parlamentarismo federal representativista, com voto e restrição do poder, que se queria o mais dividido e descentralizado quanto possível.

Seguiram-se a República Holandesa, as cidades-Estado do norte da Alemanha, e a Inglaterra, após a chamada ’revolução gloriosa’, que inaugurou o governo constitucional (antecedendo a insurreição jacobina). Porém, foi a independência dos EUA e a escrita da sua constituição por mão puritana que fez culminar o adágio que Abraham Kuyper (primeiro-ministro holandês do séc XX) replicou sem cessar: ‘onde quer que o calvinismo grassou, abundou insofismavelmente a liberdade’.

‘[Jesus] lembra que não se pode deprezar de ânimo leve uma tão preciosa liberdade. E é decerto uma bênção incalculável, cuja defesa é nosso dever reter pela luta, se necessário até à morte; pelo que não só as nossas necessidades temporais como também os nossos interesses eternos animam a nossa pugna’.

João Calvino, Comentário da Espístola aos Gálatas

. . . (1509-1564)

•10 10UTC Julho 10UTC 2009 • 2 Comentários

Há 500 anos nascia um eleito do Senhor, que Deus, em toda a sua glória, levantou para devolver a Palavra de Deus à sua Igreja, proclamar o Evangelho da salvação a toda a Europa e dilatar o seu Reino por impulso do Espírito Santo, usando um pobre pecador e homem miserável, como predestinado segundo o eterno conselho da sua vontade e o excelso louvor de Cristo, soberano sobre todas as coisas.

Este santo não se quer venerado, nem exaltado. Recusou sequer ter um nome sobre a sua lápide, mas preferiu, em vez, ser lembrado como um servo do Senhor.

Assim seja.

Soli Deo Gloria.

Douglas Wilson sobre Calvino.

•6 06UTC Julho 06UTC 2009 • Deixe um Comentário

A próxima conferência Desiring God, de John Piper, será sobre o retrato de Calvino no teatro de Deus. Aqui, Douglas Wilson, que aperfeiçoou a bivocação de pastor/blogger, fala-nos do exemplo daquele reformador genovês para a Igreja Evangélica contemporânea (nota: emoldurado num plano que inclui uma garrafa de cerveja igualmente calvinista).

A reter:

1. Calvino era  um biblicista absoluto, cuja abordagem apologética baseava-se na autoridade da Palavra de Deus e não na verificabilidade empírica das Escrituras (cf. inerrantistas);

2. Calvino não cria que a Bíblia estava aberta ao juízo da humanidade, mas era a humanidade que se achava sob o julgamento dela;

3. Calvino acreditava que todo o cristão deve oferecer o seu coração a Deus pronta e sinceramente e obrar durante toda a sua vida para o Reino na terra pelo avanço do Evangelho;

4. Calvino não era um fundamentalista-separatista, mas um cristão ortodoxo que via a Palavra como autoritativa sobre todas as áreas da vida em que ela se afirma soberana – a saber: todas.

As redundâncias de mais um existencialista morto.

•2 02UTC Julho 02UTC 2009 • Deixe um Comentário

É hoje o penúltimo exame da licenciatura, e eis que me calha estudar o romance de John Fowles, The French Lieutenant’s Woman (1969). Pondo por ora de parte a adaptação fílmica de Harold Pinter, com Meryl Streep e Jeremy Irons, confesso que me interessou a abordagem narrativa do autor.

John Fowles, enquanto narrador homodiegético, não só se insere na acção enquanto personagem secundário, como recusa ser omnisciente no seu relato, até se gabando de não controlar as suas personagens. Isto porque, como bom franco-existencialista e, segundo ele mesmo, não crê num Deus todo-poderoso, logo nem princípios de narratologia segue para não incorrer no erro de se parecer com ele – como, por exemplo, ao ser soberano sobre o contar da sua história.

O problema de John Fowles é que ele, ainda assim, criou-a. Tipo: do nada.

E é esta a tragédia Sartre-iana. Tanta conversa de existência preceder a essência e esquecem-se a imanência. Mas está lá. Entre o papel e a Bic.

Recentralização do evangelho e plantação eclesiológica.

•1 01UTC Julho 01UTC 2009 • Deixe um Comentário

A conferência Advance 09 tem como fim reavaliar o conceito de comunhão em igreja, e como dinamizar a plantação de novas congregações, através duma massificação destas, pelos recurso a todos os meios comunicacionais possíveis, mantendo o ênfase nas pessoas e, sobretudo, na centralidade do evangelho, segundo este processo:

1. Recentralização do evangelho e revitalização de congregações
2. Disseminação evangélica na localidade, alcançando a cultura regional
3. Plantação de igrejas locais no perímetro da localidade até à periferia
4. Criação de redes de comunicação interlocais destas igrejas com antigas e operar o ponto 1.

Porém, as seguintes mensagens são para a edificação de todos. Aconselho:

Mark Driscoll – “What Is the Church?
Tyler Jones – “The Resurgence of the Church
Bryan Chapell – “Communicating the Gospel Through Preaching
Matt Chandler – “Preaching the Gospel to the De-churched
Q & A with Chandler, Driscoll, and Chapell
Ed Stetzer – “Keys to Understanding the Church and Kingdom
J. D. Greear – “Planting Is for Wimps: Revitalizing a Church Around the Gospel
Eric Mason – “The Ultimate Shepherd
Mark Driscoll – “Ministry Idolatry
John Piper – “Let the Nations Be Glad, Part 1
Danny Akin – “Marks of a Healthy Community of Faith
John Piper – “Let the Nations Be Glad, Part 2
Q & A with Piper, Driscoll, Greear, and Stetzer

Beza: a necessidade e a beleza da Queda.

•1 01UTC Julho 01UTC 2009 • Deixe um Comentário

‘Deve ser confessado que, em verdade, tudo o que Deus decrete também ele o ordena pela sua vontade, sendo que aqui também resplandece a sua infinda sabedoria, para que até nas trevas possa luzir um pouco de luz, duma forma que esta permanece tenebrosa; ou seja, é também bom que exista o mal . . . Por exemplo, que Deus haja salvo os seus pela redenção graciosa do seu próprio Filho, o Cristo, serve a sua exacerbada e áurea glória, que, doutra forma, não rebrilharia. Nem o homem necessitaria de redenção do pecado e da morte, a menos que pecado e morte existissem. Logo, com respeito à ordenança de Deus, foi bom que o pecado e a morte entrassem neste mundo; ainda assim, este pecado é e permance pecado de tal forma na sua natureza, que jamais poderia ser expiado, excepto se por uma punição terrível. De novo, recebemos bem mais em Cristo do que o que perdêramos em Adão. Assim, foi melhor para nós que Adão tenha caído perante Deus, que nos prepara um Reino de glória sempiterna por este meio maravilhoso’

– Teodoro Beza in Quæstionum Et Responsionum Christianarum Libellus, 1570

Martinho Lutero sobre a importância das Letras para o domínio da teologia.

•17 17UTC Junho 17UTC 2009 • Deixe um Comentário

‘Estou convencido de que sem conhecimento da literatura a teologia pura não pode de todo resistir, pelo antecedente de que sempre que as letras decaíram e se renderam ao ócio, também a teologia caiu desgraçadamente e se entregou à diletância. Nem, porém, vi eu que houvera vez alguma uma grande revelação da Palavra de Deus, a menos que se tenha preparado caminho pela promoção e prosperidade das línguas e das letras . . . É, de certo, meu desejo que venha a haver tantos poetas e mestres de retórica quanto possível, porque percebo que por estes estudos, como por mais nenhum outro meio, são as pessoas maravilhosamente equipadas para o domínio da verdade sagrada e o seu tacto arguto e feliz desta.’

– Martinho Lutero, epístola a Eoban Hess, 29 de Março de 1523